"…A todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou…

— Clarice Lispector
"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém… Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto… e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!

— Antoine de Saint-Exupèry
"Não ri e não cantei:
fiquei o dia inteiro calada.
Mais do que tudo queria estar contigo
de novo desde o começo.
Irrefletida a primeira briga,
absoluto e claro delírio;
silenciosa, insensível, rápida,
nossa última refeição.

— Anna Akhmatova

Nunca soube ser primavera

Ora, pois aqui encontro-me no âmago de meus pensamentos desconsertantes e ponho-me a imaginar os trilhos de minha vidinha mediocremente monótona e dou-me conta de que primavera nunca fui, passei por muitas estações das flores, mas, de alma, sempre fui como as folhas de outono; bonitas de ser ver, mas de uma beleza triste. Não se engane, ofereci muitos sorrisos, tive o coração dilapidado uma ou duas vezes, e dilapidei alguns também, tive amigos que ainda levo debaixo de sete chaves como proclama a Canção da América, mas no fim do dia sempre foi o mesmo ritual. Não, eu não me afogava em minha fonte de lágrimas, apesar de vez ou outra ter deixado algumas rolarem. Meu ritual de fim de dia era afogar-me em um oceano de pesadelos, pensamentos masoquistas que tomavam meu inconsciente a fim de mostrar-me um lado meu que eu não quis conhecer. Fico estupefata em reconhecer que sempre quis ser primavera, mas primavera nunca soube ser.

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

— Fernando Pessoa
CÓGITO ERGO SUM.
home × ask × me × photos ×
Escrevo sem destinatários. Escrevo pelo simples ato de escrever, escrevo pela explosão que a mim não cabe implodir. Então explode, rasgando o papel de tinta que desenha aquilo que dentro não há de ficar. Aquilo que chamam palavras, e que eu particularmente chamo de doutrina do ser.
CÓGITO ERGO SUM.
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“…A todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou…”
~ Clarice Lispector

“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém… Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto… e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!”
~ Antoine de Saint-Exupèry

“Não ri e não cantei:
fiquei o dia inteiro calada.
Mais do que tudo queria estar contigo
de novo desde o começo.
Irrefletida a primeira briga,
absoluto e claro delírio;
silenciosa, insensível, rápida,
nossa última refeição.”
~ Anna Akhmatova

Nunca soube ser primavera

Ora, pois aqui encontro-me no âmago de meus pensamentos desconsertantes e ponho-me a imaginar os trilhos de minha vidinha mediocremente monótona e dou-me conta de que primavera nunca fui, passei por muitas estações das flores, mas, de alma, sempre fui como as folhas de outono; bonitas de ser ver, mas de uma beleza triste. Não se engane, ofereci muitos sorrisos, tive o coração dilapidado uma ou duas vezes, e dilapidei alguns também, tive amigos que ainda levo debaixo de sete chaves como proclama a Canção da América, mas no fim do dia sempre foi o mesmo ritual. Não, eu não me afogava em minha fonte de lágrimas, apesar de vez ou outra ter deixado algumas rolarem. Meu ritual de fim de dia era afogar-me em um oceano de pesadelos, pensamentos masoquistas que tomavam meu inconsciente a fim de mostrar-me um lado meu que eu não quis conhecer. Fico estupefata em reconhecer que sempre quis ser primavera, mas primavera nunca soube ser.


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“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
~ Fernando Pessoa