
Nunca soube ser primavera
Ora, pois aqui encontro-me no âmago de meus pensamentos desconsertantes e ponho-me a imaginar os trilhos de minha vidinha mediocremente monótona e dou-me conta de que primavera nunca fui, passei por muitas estações das flores, mas, de alma, sempre fui como as folhas de outono; bonitas de ser ver, mas de uma beleza triste. Não se engane, ofereci muitos sorrisos, tive o coração dilapidado uma ou duas vezes, e dilapidei alguns também, tive amigos que ainda levo debaixo de sete chaves como proclama a Canção da América, mas no fim do dia sempre foi o mesmo ritual. Não, eu não me afogava em minha fonte de lágrimas, apesar de vez ou outra ter deixado algumas rolarem. Meu ritual de fim de dia era afogar-me em um oceano de pesadelos, pensamentos masoquistas que tomavam meu inconsciente a fim de mostrar-me um lado meu que eu não quis conhecer. Fico estupefata em reconhecer que sempre quis ser primavera, mas primavera nunca soube ser.